Abaixo o fichamento do texto freudiano Luto e Melancolia.

fonte: psicologiapsicanalisecotidiano.blogspot.com
FREUD, Sigmund, 1856-1939.
Luto e Melancolia (p.249) in Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição Standard brasileira, vol. XIV – Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996.
Freud procura, nesse artigo, lançar alguma luz sobre a natureza da melancolia, comparando-a com o afeto normal do luto. A melancolia, cuja definição varia inclusive na psiquiatria descritiva, assume várias formas clínicas, cujo agrupamento numa única unidade não parece ter sido estabelecido com certeza, sendo que algumas dessas formas sugerem afecções antes somáticas do que psicogênicas.
As causas excitantes devidas a influências ambientais são, na medida em que podemos dicerní-las, as mesmas para ambas as condições. O luto, de maneira geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto.
Embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. Confiamos em que seja superado após certo lapso de tempo.
Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. A perturbação da auto-estima está ausente no luto; afora isso as características são as mesmas. A inibição e circunscrisão do ego é a expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses. E só porque sabemos explicá-la tão bem é que essa atitude não nos parece patológica.
Qual seria então o trabalho do luto? Como o objeto amado não existe mais, é necessário que toda a libido seja retirada de suas ligações com aquele objeto. Essa exigência provoca uma oposição compreensível – é fato notório que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal. Cada uma das lembranças e expectativas isoladas através das quais a libido está vinculada ao objeto é evocada e hipercatexizada, e o desligamento da libido se realiza em relação a cada uma delas.
Apliquemos agora à melancolia o que aprendemos sobre o luto. É evidente que a melancolia também pode constituir reação à perda de um objeto amado. Onde as causas excitantes se mostram diferentes, pode-se reconhecer que existe uma perda de natureza mais ideal. O objeto talvez não tenha realmente morrido, mas tenha sido perdido enquanto objeto de amor.
A inibição do melancólico nos parece enigmática porque não podemos ver o que é que o está absorvendo tão completamente. O melancólico exibe ainda uma outra coisa ausente no luto: uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. O quadro de delírio de inferioridade na melancolia é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar.
O ponto não é saber se a autodifamação aflitiva do melancólico é correta, no sentido de que sua autocrítica esteja de acordo com a opinião de outras pessoas. O ponto consiste antes em saber se ele está apresentando uma descrição correta de sua situação psicológica.
Analisando o conceito que a perturbação do melancólico oferece a respeito da constituição do ego humano, Freud desconfia de que o agente crítico, que aqui se separa do ego, talvez também revele sua independência em outras circunstâncias. No quadro clínico da melancolia a insatisfação com o ego constitui, por motivos de ordem moral, a característica mais marcante. Se se ouvir pacientemente as muitas e variadas auto-acusações de um melancólico, não se poderá evitar, no fim, a impressão de que freqüentemente as mais violentas delas dificilmente se aplicam ao próprio paciente, mas que, com ligeiras modificações, se ajustam realmente a outrem, a alguém que o paciente ama, amou ou deveria amar.
Além disso, estão longe de demonstrar perante aqueles que o cercam uma atitude de humildade e submissão, única que caberia a pessoas tão “desprezíveis”. Pelo contrário, tornam-se as pessoas mais maçantes, dando sempre a impressão de que se sentem desconsideradas e de que foram tratadas com grande injustiça. E não pe difícil reconstituir o processo pelo qual passam: existem, num dado momento, uma escolha objetal, uma ligação da libido a uma pessoa particular; então, devido a uma real desconsideração ou desapontamento proveniente da pessoa amada, a relação objetal foi destroçada. O resultado não foi o normal. A catexia objetal provou ter pouco poder de resistência e foi liquidada. Mas a libido livre não foi deslocada para outro objeto; foi retirada para o ego. Ali, contudo, não foi empregada de maneira não especificada, mas serviu para estabelecer uma identificação do ego com o objeto abandonado. Assim a sombra do objeto caiu sobre o ego e este pôde ser julgado por um agente especial, como se fosse um objeto, o objeto abandonado. Dessa forma, uma perda objetal se transformou numa perda do ego, e o conflito entre o ego e a pessoa amada, numa separação entre a atividade crítica do ego e o ego enquanto alterado pela identificação.
No processo descrito acima, uma forte fixação no objeto amado deve ter estado presente, e em contradição, a catexia objetal deve ter tido pouco poder de resistência. Conforme Otto Rank observou, essa contradição parece implicar que a escolha objetal é efetuada numa base narcisista, de modo que a catexia objetal, ao se defrontar com obstáculos, pode retroceder para o narcisismo.
A tendência a adoecer de melancolia reside na predominância do tipo narcisista da escolha objetal, há uma regressão da mesma para a fase oral ainda narcisista da libido.Também nas neuroses de transferência as identificações com o objeto não são raras. Na realidade constituem um conhecido mecanismo de formação de sintomas, especialmente na histeria. Contudo, a diferença entre a identificação narcisista e a histérica, pode residir no seguinte: ao passo que na primeira a catexia objetal é abandonada, na segunda persiste e manifesta a sua influência, embora isso em geral esteja confinado a certas ações e inervações isoladas.
A melancolia, portanto, toma emprestado do luto alguns dos seus trações e, do processo de regressão, desde a escolha objetal narcisista para o narcisismo, os outros. É por um lado, como o luto, uma reação à perda real de um objeto amado; mas, acima de tudo isso, é assinalada por uma determinante que se acha ausente no luto normal ou que, se estiver presente, transforma este em luto patológico.
A catexia erótica do melancólico no tocante a seu objeto sofreu assim uma dupla vicissitude: parte dela retrocedeu à identificação, mas a outra parte, sob a influência do conflito devido à ambivalência, foi levada de volta à etapa de sadismo que se acha mais próxima do conflito. É esse sadismo que soluciona o enigma da tendência ao suicídio, que torna a melancolia tão interessante e perigosa.
A análise da melancolia nos mostra que o ego só pode se matar se, devido ao retorno da catexia objetal, puder tratar a si mesmo como um objeto. Assim, na regressão desde a escolha objetal narcisista, é verdade que nos livramos do objeto; ele, não obstante, se revelou mais poderoso do que o próprio ego. Nas duas situações opostas, de paixão intensa e de suicídio, o ego é dominado pelo objeto, embora de maneiras diferentes.
A característica mais notável da melancolia e que mais precisa de explicação é sua tendência a se transformar em mania, estado este que é oposto a ela em sintomas. A melancolia é uma impressão psicanalítica, a mania é um tema de experiência econômica geral. O conteúdo da mania em nada difere do da melancolia, ambas as desordens lutam com o mesmo complexo, mas que provavelmente, na melancolia, o ego sucumbe ao complexo, ao passo que, na mania, domina-o ou o pões de lado. Na mania o ego deve ter superado a perda do objeto e, conseqüentemente, toda a quota de anticatexia que o penoso sofrimento da melancolia tinha atraído para si vinda do ego e “vinculado” se terá tornado disponível. Além disso, o indivíduo maníaco demonstra claramente sua liberação do objeto que causou seu sofrimento, procurando, vorazmente, novas catexias objetais.
A melancolia contém algo mais que o luto normal: a relação com o objeto é complicada pelo conflito devido a uma ambivalência ou constitucional (elemento de toda relação amorosa formada por esse ego particular) ou provém precisamente daquelas experiências que envolveram a ameaça da perda do objeto.
No trabalho da melancolia, portanto, a consciência está cônscia de uma parte que não é essencial, e nem sequer é uma parte a qual possamos atribuir o mérito de ter contribuído para o término da doença. Vemos que o ego se degrada e se enfurece contra si mesmo, e compreendemos tão pouco quanto o paciente a que é que isso pode levar e como pode modificar-se.
Das três precondições da melancolia – perda do objeto, ambivalência e regressão da libido do ego – as duas primeiras também se encontram nas auto-recriminações obsessivas que surgem depois da ocorrência de uma morte. Nesses casos é a ambivalência que constitui a força motora do conflito, revelando-nos a observação que, depois de determinado conflito, nada mais resta que se assemelhe ao triunfo de um estado de mente maníaco. O acúmulo de catexia que, de início, fica vinculado e, terminado o trabalho da melancolia, se torna livre, fazendo com que a mania seja possível, deve ser ligado à regressão da libido ao narcisismo.